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Sob o signo da morte: a escrita simbólica dos desertores de outrora agora – algumas considerações sobre a ficção de Augusto Abelaira
Edimara Luciana Sartori (UFRJ)

Talvez uma das imagens que melhor representa a escritura de Augusto Abelaira seja a do calidoscópio, refletindo, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis. Podemos ler esta escritura de muitas perspectivas, encontrando, em cada viés selecionado, temas diversos, abordados também sob diferentes valores ideológicos. E isto tudo nos é revelado por discretas cenas cotidianas, como Jerônimo de Outrora agora que pensa em “um romance que abordasse os grandes temas, as grandes interrogações, mas sem as grandes palavras, e em que a metafísica se deduzisse de conversas banais, apenas de conversas banais...” (p. 173).

É da reflexão sobre estas conversas e situações banais representadas no espaço romanesco de Abelaira que proponho uma leitura dos modos de representação da morte em Os desertores e Outrora agora . Publicado em 1960, Os desertores 1 inicia com um diálogo entre os amigos Gabriel, Jaime e Ramiro num café de Lisboa. É véspera de Ano Novo, e o desencontro das conversas dos jovens revela o marasmo presente e o descaso em relação aos projetos para o ano que se inicia. Esta sensação de apatia domina o comportamento das personagens em toda narrativa. É Berenice quem percebe este cansaço frente à vida, pois

 

Agrada-lhe o Chiado de manhã e detesta-o à tarde. Não corre o risco dos encontrões e as pessoas ainda não parecem cansadas, têm o ar aberto de quem espera grandes coisas. “Sabe-se lá se não será hoje?” Se não será o quê? Isto ou aquilo. (...) O dia ainda não os triturou e é bom sentir-lhes aquela presença confiante . ( OD , p. 27. Grifos meus).

 

Os jovens burgueses gastam seus dias em atitudes e conversas vazias. Se há um sistema sufocante gerador deste marasmo, não há qualquer tentativa de confronto. A aceitação passiva produz um desconforto que leva as personagens a procurarem alternativas que amenizem tal angústia. Cafés, praia e banhos de mar, passeios de carro, fazer o Chiado são algumas das opções destes jovens que riem porque não ignoram “que ‘descer' ou ‘subir' o Chiado eram palavras equivalentes. Significavam: ‘queimamos o tempo, fazemos horas' ( OD , p. 29). As personagens têm consciência crítica sobre este estado de inércia que as aprisiona ao mesmo tempo que percebem a grande crise de valores ético-morais que está a desmoronar os pilares de sustentação da sociedade ocidental:

 

Perdeu-se a antiga fé e ainda não encontrámos outra – (...) A fé obriga a sacrifícios, a muita consciência, e o cepticismo, pelo menos este nosso cepticismo, é mais cómodo. Os católicos, os cátaros, os socialistas, sei lá quem mais, deixaram-se ou deixam-se morrer pelos seus ideais. Não sou capaz de morrer por nada, nem mesmo por mim próprio... Dantes os homens não sabiam viver sem um credo e hoje descobriu-se que é fácil, descobriu-se que é cómodo... ( OD , p. 113).

 

A declaração de Jaime revela a atitude de uma geração de jovens inertes, mesmo num tempo de conflitos sócio-políticos alimentados pelo regime fascista que dominava Portugal desde o segundo quartel do século XX. Esta descrença em um ideal que pudesse trazer a melhoria social não representa somente uma visão individual, mas o conflito interior de uma geração castrada do poder da ação. A fala de Ramiro reproduz esta situação: “nada fiz pelos portugueses, mas pergunto-me se cada português não incorre também na mesma falta... É com a imobilidade dos outros que me justifico a mim mesmo. E eles também.” (OD, p. 113)

A fala das personagens parece um jogo de ciranda, no qual cada um expõe um determinado pensamento que, logo depois, pode ser ouvido de outra personagem, caracterizando um comportamento marcado pela ambigüidade. Assim, elas se justificam, se solidarizam e se complementam numa aparente tranqüilidade interior.

Uma espécie de fadiga em relação a vida acompanha também as personagens de Outrora agora 2. O título deste romance já prenuncia um paradoxo em relação à apreensão do tempo, este melindroso fenômeno sempre mencionado com um inquietante preocupação na obra de Abelaira. Jerónimo, um tradutor de “sessenta e poucos anos”, vê seu destino envolvido por três mulheres: Marta, a esposa real do tempo presente, Cristina, dos tempos idos do MUD Juvenil e Filomena, a promessa sedutora de um futuro não muito distante. A verdade é que Jerónimo sentia-se só e por este motivo deixou a Marta em Lisboa e seguiu para o Algarve a fim de terminar uma tradução “que também poderia ser acabada em Lisboa” ( OA , p.21). No Algarve reencontra Cristina, antiga companheira do MUD juvenil, e imagina poder viver com ela uma possibilidade de felicidade, de reconstrução da vida que poderia ter sido, mas que não foi. Contudo, Jerónimo se vê seduzido também por Filomena, amiga de Cristina, uma arquiteta de 28 anos. O discurso que apresenta o envolvimento do tradutor com as duas mulheres é sinuoso, cuja marca maior é a ambigüidade das palavras, donde seus duplos sentidos vão construir o espaço da sedução e do prazer decorrente desta conquista.

No entanto, a arte da sedução explorada em cada palavra dita pelas personagens vai desnudar uma profunda, quase nostálgica, desilusão da vida. Enquanto Jerónimo e Cristina lamentam a coerção sócio-política e os preconceitos ético-morais que castraram os comportamentos sociais e íntimos de sua geração, Filomena afirma ao tradutor que sente falta duma crença profunda, dum ideal, de ter vivido na época do fascismo. A jovem acredita que durante aquele período viviam com outra intensidade, “viviam por alguma coisa que os ultrapassava, tinham esperanças” (OA, p.85). A sensação de impotência e a perplexidade frente a um tempo ameaçador sufocam qualquer tentativa de participação ativa no funcionamento da res pública . As personagens de Os desertores e de Outrora agora vivem às margens da vida social, foram abortados por um sistema autoritário representado pelo fascismo de outrora e pela máscara democrática que sustenta o capitalismo de agora. Nos dois casos, porém de forma distinta, o sistema cala os marginalizados, sufocando-os até a morte simbólica da energia vital que os orienta em direção da conquista de suas crenças, de seus ideais.

O adormecimento da relação dialética indivíduo-sociedade vai repercutir na convivência interpessoal e, da mesma forma que se desenvolve a apatia com o envolvimento sócio-político, perde-se também o interesse pelo outro, sobrepondo-se, assim, o império do eu como valor absoluto. Contudo, como eu representa uma entidade em crise, o sujeito procura desvelar-se ao outro através de máscaras que constituem simulacros da realidade. Tanto em Os desertores como em Outrora agora aparece uma grande recorrência de expressões que revelam a representação das emoções das personagens, tais como: “torturada por não ter sabido representar o seu papel na comédia” (OD, p.99); “Berenice levantou-se em silêncio e saiu pela porta do fundo, à Dir., deixando no palco, frente a frente, e para a cena final, o pai e a mãe” (OD, p.100); “Berenice não entrou no jogo. (Segundo Acto-reflectiu)” (OD, p.101); “continuava a representar” (OD, p.143); “Porque finges que não te recordas? Para quem estás a representar?” (OD, p.149). Podemos observar que o autor reforça a idéia da representação teatral utilizando a marcação lingüística própria da arte dramática: “levantou-se em silêncio e saiu pela porta do fundo, à Dir.”, “Segundo Acto”. As próprias personagens percebem e analisam suas atitudes e escolhas na relação interpessoal bem como o comportamento do outro no ato comunicativo: “isso: constróis de ti essa imagem fictícia” (OA, p.116); “Teatraliza o tom (...) Não é a resposta a uma pergunta real, mas a aceitação do teatro” (OA, p.166); “aceitou o jogo (a discutível graça), não se propõe a falar a sério” (OA, p.169); “passeava em frente do Jerónimo, desejaria deitar-se com ele, embora receando anular assim a comédia que decidira representar? Devendo obedecer ao desejo ou à comédia, à realidade ou ao teatro?” (OA, p.260). As personagens abelairianas tornam-se atores que velam e desvelam seus rostos com máscaras, com as quais se identificam momentaneamente.

A máscara constitui, assim, um símbolo da identificação e as personagens-atores têm consciência dos papéis que estão a representar. Daí surge outro problema: a tentativa de desvendamento da palavra do outro, “a obstinada tentação de encontrar outros sentido nas palavras mais simples, como se as pessoas dissessem sempre outra coisa” (OA, p.45). Este jogo de palavras e de troca de máscaras inviabiliza a descoberta do eu profundo, o que acarreta a falta de coerência e a ambigüidade do comportamento das personagens que oscilam de um comportamento a outro.

O descaso com o comprometimento sócio-político e com a relação íntima efetiva gera uma sensação de mal-estar, de vazio, que desperta nas personagens um desejo de fuga. Os dois romances analisados apresentam, no primeiro capítulo, a imagem tão representativa aos portugueses do barco. Em Os desertores , “à vista dos barcos de Cacilhas, Ramiro e Gabriel sentiram-se invadidos pela ancestral fúria de navegar que havia dado a Índia e o Brasil aos velhos portugueses” (OD, p.26). Em Outrora agora , o vento horizontal, o mar cinzento e encrespado, os reflexos brancos e o barco à vela ilustram “os postais destinados a transmitir ao mundo as belezas do Algarve” (OA, p.9). Em ambos os casos, os barcos são contemplados pelas personagens e, conforme o trabalho de Chevalier e Gheerbrant 3, servem para simbolizar a viagem da vida presente que não deixa de ser uma navegação perigosa. Deste ponto de vista, a imagem do barco é um símbolo de segurança, porque favorece a travessia da existência. Por esta razão, tal imagem pode sinalizar a viagem entendida como uma mudança do espaço ameaçador –a paralisia - para um espaço reconfortante – a ação ou ainda pode indicar simplesmente o desejo de fuga. É neste sentido que uma das personagens de Os desertores diz que conformar-se com a injustiça é desertar (OD, p.139), é morrer por não oferecer qualquer resistência.

Um mistério acompanha o desaparecimento de Berenice em Os desertores e o acidente com o automóvel de Jerônimo no final de Outrora agora . O ponto em comum que une as duas personagens é a sensação de sufocamento causado pela estrutura sócio-política, pelas convenções ético-morais, vítimas da própria debilidade. Berenice desapareceu no oceano no Jaguar Branco da mãe. Jerónimo, ao tentar matar uma mosca, perde o controle do automóvel que derrapa e vai ao encontro de uma imensa e escura árvore. Ela transgrediu o código moral de uma sociedade ainda conservadora, ousou comportamentos antes mesmo dos movimentos libertários de Maio de 68. E um mistério paira sobre sua morte, apesar de insistirem nas buscas ao longo da costa ao longo dos dias, o corpo não foi encontrado. Ela continua a viver na lembrança dos amigos, ela, talvez, “voltará numa manhã de nevoeiro” (OD, p. 177) diz Genoveva, para resgatar os jovens de sua geração da pseudo-existência em que vivem. Jerónimo se acidenta durante a viagem de regresso de Lisboa ao Algarve, quando decide reencontrar Cristina e recomeçar a história do passado desde o momento em que se despediram, 40 anos atrás. O final inconcluso de Outrora agora sugere uma mudança na vida de Jerónimo. Admitindo a hipótese da morte do tradutor, o romance parece sinalizar que o passado não pode ser recuperado pelo presente, pois Jerónimo não procura Cristina no presente, mas aquela jovem de vestido de tobralco e duas tranças dos tempos do MUD Juvenil. As recordações de Jerónimo são confusas, passado e presente se alternam numa profusão de lembranças inebriante. O acidente de Jerónimo nos faz lembrar de que cada momento é único, de que é preciso atuar, desempenhar de maneira eficaz o papel de homem atuante na cena cotidiana. Ao contrário da representação teatral, na vida, não é possível repetir, reviver a cena. A ambivalência morte-vida existe em função da viagem que é a existência. A travessia é sempre perigosa em todos os tempos, como a vida - sinônimo de ação - desperdiçada pelos desertores de outrora e os de agora.

 

 

ABELAIRA, Augusto. Os desertores . 4. ed. Lisboa: Bertrand, 1978. As citações referentes a esta obra virão indicadas com as iniciais OD , seguidas do número da página.

ABELAIRA, Augusto. Outrora agora . Lisboa Presença, 1996. As citações referentes a esta obra virão indicadas com as iniciais OA , seguidas do número da página.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos . 18. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.